Por Rita Mundim
O crescimento extraordinário da produtividade americana desde 1995 e da produtividade nos países emergentes podem explicar como os emergentes têm suportado um aumento nos preços das commodities sem maiores conseqüências no nível de investimento, e é ainda o porquê da inflação permanecer sob controle na maioria dos países, apesar dos aumentos significativos nos preços das matérias-primas, no consumo das famílias e nos lucros corporativos.
A queda das barreiras comerciais, a disciplina dos bancos centrais e a transformação da China na grande base manufatureira global estariam criando pressões permanentes de redução de preços. Mas há setores da economia em que a oferta de produtos é limitada por fatores naturais. São esses segmentos, que estão esquentando o bafo do dragão da inflação. O que assusta o mundo é a chamada agroinflação.
No Brasil, o leite subiu quase 100% nos últimos oito meses, a arroba do boi mais de 30% em um ano, as cotações do trigo mais de 50% e a do milho mais de 160% em 12 meses. Essa “agroinflação” é um fenômeno diretamente relacionado com o Brasil. O aspecto positivo é visível nos números da balança comercial. Apesar do câmbio desfavorável, os produtores rurais deverão exportar US$ 45 bilhões neste ano.
A agroinflação também ajuda a desmontar uma linha de pensamento econômico que fez sucesso nos anos 70. Trata-se da “teoria da dependência”, escrita pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. FHC previa que a América Latina estaria condenada ao subdesenvolvimento pelo fato de exportar produtos que tenderiam a perder valor no comércio internacional. O que se vê hoje é um fenômeno inverso. Produtos industriais se tornam cada vez mais “bens de prateleira”, enquanto as antigas commodities ganham valor. José Ruiz, economista do Santander, previu um longo ciclo de progresso para a América Latina a partir de uma tese curiosa. Segundo ele, hoje, um “quilo de Audi” custa menos na Europa do que um “quilo de carne”.
Escrevi este artigo no dia 13 de agosto de 2007, e de lá para cá , a coisa só piorou... Além da agroinflação , o preço do barril de petróleo, ou melhor a inflação da energia assusta até os mais otimistas. A commodity já está acima de US$120,00 o barril e se não houver um aumento significativo na oferta e uma valorização do dólar frente a outras moedas fortes como euro, yene, Yuan e mesmo o real , o preço do barril pode atingir os US$150,00 em curto espaço de tempo.
No dia 11 de abril deste ano, o presidente Lula classificou esta inflação mundial como uma “inflação boa” partindo do pressuposto de que as pessoas estão comendo mais, consumindo mais. Infelizmente, senhor presidente , não existe inflação boa. A perda de poder aquisitivo de qualquer moeda atinge a todos, mas sempre mais, àqueles que não têm acesso aos mecanismos do mercado financeiro que possibilitam minimizar estas perdas.
O Brasil com S e ou com Z é hoje a solução potencial desta crise. Com uma imensidão de áreas agriculturáveis e com as reservas recém-descobertas pela Petrobras poderemos aumentar a oferta de alimentos e petróleo do mundo, nos transformando quem sabe na grande potência da próxima década. Mas a grandeza de um país não se mede apenas pelo potencial de recursos que podem ser incorporados à atividade econômica , mas sim pela produtividade na incorporação dos mesmos e pela conseqüente distribuição da riqueza gerada pelo crescimento advindo deste processo.
E aí está o nosso maior desafio: a acessibilidade da nossa população ao processo produtivo e conseqüentemente à riqueza gerada por este processo está diretamente ligada à educação da população , seja ela básica, fundamental, superior ou financeira.
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